Sob a lua vermelha de novembro...

Quando tudo isso começou? Quando as engrenagens do destino começaram a girar? Talvez seja impossível achar a resposta agora, profunda no fluir do tempo...

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Eu? Apenas mais um andante solitário...mas todos os andantes tem uma ou outra lição a passar devida à sua intimidade com a estrada. A estrada é sábia. Embora seja certo que o caminho ainda segue muito à frente... quantas lições nos esperam?

terça-feira, abril 12, 2005

Terceira Parte

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Parte III


I


O morrer...ó inigualável instante!
Eis a liberdade do vital fardo,
e o gotejar do límpido sangue:
rubro castigo, agora imaculado;

Ah, esse segundo aquele que o passa
não mais o pode olvidar;
E o que ocorrerá aqui com tatsunaga
é raro, árduo d’explicar,

pois não era chegada inda sua hora,
houvesse ele baixado a fronte embora:
nobre gesto, ápice no ruir da glória.

Fitava o chão, e era tudo silêncio;
Dois joelhos no chão, Um eterno alento;
Até um grito ecoar; e depois, o vento...

II

Soou, soou o som lamurioso
e, na morte, um guerreiro adentrou;
De Tatsunaga a passos poucos,
a um cavaleiro, uma flecha trespassou;

E caiu; lento sem preocupar-se mais
com o inimigo que com seu ferimento;
Caiu, e roubou do outro a sublime paz
surgida no antes inevitável momento.

Roubou, e se viu a dupla vítima
em instantes furtada da paz e da vida;
Uma após outra em espanto perdida;

Roubou, e por trás do cadáver o vulto,
sob o poente, d’aquele jovem em rubro,
cuja flecha, cujo arco, resgatara-lhe tudo...

III

Olhou, e os olhares se cruzaram
mas não se deteram, nem desviaram
da profundo instante, do eterno enlaço;

Olhou, e n’outro o castanho olho
o brilho era um diamante lustroso
por vastas férteis terras envolto;

Olhou, e leu n’outro a sina do vento,
e viu no arco as mãos de cimento
desbastadas pelo mundo ferrenho;

Olhou, a gruta era um túnel sem fim;
mas, como a flecha que voara assim,
furou o espírito d’aquele que jazia ali;

Furou, e viu o céu, e viu o sol,
e viu a si; viu da tristeza o rol,
a solitária onda do sombrio atol;

Olhou, e viu a lâmina dourada
fulgir co’o término da alvorada
que, aos poucos, do céu se desgarrava;

Olhou, e lhe parecia que a mágica
do mundo inteiro só ali se deitava;
em um momento, sob a luz da espada;

Olhou, mas não era mais um olhar
que um beijo; não era mais um pensar
que anseio; não era mais nada, que amar.

E tatsunaga, ali, caído, amou;
No sangrento sítio, ele amou;
E viu o coração do outro, e lá se achou;
Assim, na lama, jovem broto se fez flor.

IV

Sanahide, assim o soube, era seu nome,
era um viandante, um sonho procurando;
Um sonho d’espírito, que o céu o conte,
d’entender dessa vida o supremo canto.

Assim, de nobre, passou a pobre,
e de rico, a peregrino;
D’um Senhor era filho,
mas que não mais espera que volte.

Então, ele andou pela estrada,
e conheceu a mágoa;
Sim, por ela vagou ele insone
e descobriu a fome;

Seu coração foi mil vezes ferido
por seus próprios irmãos;
Encontrou porém, no vento rijo,
um baluarte e compaixão.

V

Ó, vento...quem sabe onde vais dar?
Ei-te aqui hoje, ei-lo amanhã acolá,

pois não sabe a brisa arisca
d’onde vem ou pr’onde vai:
por onde sopra não se firma
e conhece tudo, e tudo faz.

Não firma raiz, não corre ao mar,
não fulgura, formas não traz:
eis liberdade, eis força, eis paz;

E, sendo leve, mais dura é que o aço,
e, invisível, que a jóia mais brilhante;
barreiras não vê, ou limite ou enfado.

VI

Tudo isso soube Tatsunaga do amado,
e contou-lhe após sua própria saga;
Contou-lhe que, já d’esperança apartado,
nesse campo quase seu fim chegara.

Como uma recompensa, um convite fez
(embora de ser dito já não precisasse),
para que, com ele, às suas terras voltasse,
onde teriam paz, fartura, felicidade.

E marcharam, e boas novas souberam:
que, já depois, n’outra batalha,
o senhor havia derrotado vil exército,
e por Tatsunaga procurava...

Ah, sorriam, meus senhores, pois ido
se haviam todos os temores embora;
Sorriam, pois o amor se juntou ao riso,
por vários anos sem igual e sem volta;
Sorriam, como o fogo e o vento sorriam
juntos, no incêndio do amor que sentiam.



(continua...)

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(Autor: Bruno Neves Oliveira)